A formação, chave para avançar na diversidade dentro de instituições e empresas

O antropólogo José Ignacio Pichardo Galán faz parte de um programa que avaliou o clima relacionado com a inclusão LGBTQ+ em dezesseis empresas e oito universidades da Espanha e de Portugal. Segundo os resultados, grande parte das pessoas que se identificam dentro desse coletivo não se sentem à vontade em seu ambiente de trabalho. A formação em todos os níveis é, conforme o acadêmico, uma das medidas básicas para conseguir que os ambientes de trabalho sejam mais inclusivos.

Tanto Portugal quanto a Espanha contam com uma legislação pioneira no que diz respeito aos direitos do coletivo LGBTQ+. Porém, isso ainda não se traduziu em ambientes de trabalho plenamente inclusivos. Diante desse contexto, foi criado o projeto europeu “ADIM – Avançar na gestão da diversidade LGBT nos setores público e privado”, que avaliou os climas sobre o assunto em diversas instituições e identificou as experiências e sensações dos trabalhadores e das trabalhadoras LGBTQ+ no ambiente de trabalho.

Realizado com financiamento da União Europeia, o programa foi desenvolvido pela Dirección General de Igualdad de Trato y Diversidad do Ministerio de la Presidencia, Relaciones con las Cortes e Igualdad da Espanha, juntamente com a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Gênero de Portugal e a Universidade Complutense de Madri. Dele participaram 16 empresas e 8 universidades públicas de ambos os países.

O primeiro passo foi realizar uma enquete anônima entre o pessoal dessas organizações para fazer um diagnóstico. Dos 54.000 trabalhadores e trabalhadoras, 8.557 (quase 16%) foram entrevistados. Entre aqueles que participaram, 1.147 eram pessoas LGBTQ+. Além de obter uma das maiores amostras que existem, atualmente, para analisar a relação do coletivo com seu ambiente de trabalho, um outro triunfo do projeto ADIM foi estabelecer uma metodologia eficiente e sensível para a medição dos climas de trabalho.

Os resultados foram contundentes e mostram o longo caminho a ser percorrido para a plena inclusão. 36% das pessoas entrevistadas que se identificam como LGBTQ+ disseram que costumavam escutar rumores, piadas ou comentários negativos sobre a sua orientação sexual ou a dos outros. Além disso, aqueles que se incluem no coletivo manifestaram que sentem menos tranquilidade e realização pessoal no trabalho do que aqueles que não fazem parte dele.   

José Ignacio Pichardo Galán, professor de Antropologia Social na Universidade Complutense de Madri e membro do comitê executivo do ADIM, explica os principais resultados do programa.

 — Qual foi o problema mais frequente observado nos resultados da enquete?

 — Hoje em dia, muitas pessoas do coletivo LGBTQ+ evitam falar de sua vida privada e não se sentem à vontade expressando a sua identidade de gênero e orientação sexual no trabalho. Do total de entrevistados pertencentes a esta comunidade, apenas 28% falavam livremente de sua orientação sexual. Muitos deles estão fora do armário em sua vida cotidiana, mas no âmbito do trabalho, não. O problema é que esse encobrimento constitui uma barreira para o desenvolvimento profissional”. As pessoas que se escondem, costumam evitar participar de espaços informais de socialização. E é nesses espaços onde os projetos e as promoções são arranjados. Embora pareça uma questão menor, essa situação pode provocar consequências maiores.

 — Em um vídeo oficial do ADIM, você refere a existência de vieses inconscientes por trás de diversas cenas de discriminação. O que isso quer dizer?

 — Uma pessoa pode fazer um comentário que não tem a intenção de ser discriminador, porém, essa carga está presente de qualquer jeito. O mesmo acontece com o sexismo: há comentários ou expressões que podem fazer sentir mal ou gerar um contexto de desconforto, sem que essa seja a intenção. Existe uma espécie de LGBT-fobia passiva: embora, na Espanha, a maior parte da população respeite a diversidade sexogenérica, muitos e muitas escutam uma piada homofóbica e não dizem nada. Dessa forma, o ambiente se mantém.

Depois de obter os resultados da enquete, qual foi o passo seguinte?

É importante salientar que no ADIM foi feita a gestão dos dados. Compartilhamos com cada empresa e universidade os resultados de cada caso em particular, e somente fizemos públicos os dados gerais. Cada organização foi livre de fazer o que bem quisesse com essas informações. A Telefônica, por exemplo, fez uma campanha na qual menciona seus resultados. A partir do caso particular, foi oferecida uma formação sob medida para cada setor dessa empresa, dos diretores até os funcionários da fábrica e as equipes comerciais. O assunto da formação é básico: é preciso pô-la em prática em todos os níveis, desde as equipes responsáveis pelas decisões até os funcionários de base.

 — Além do fato de que uma maior inclusão acarreta o bem-estar das pessoas do coletivo LGBTQ+, quais outros benefícios se encontram em uma boa gestão da diversidade?

 —Fomentar a inclusão deste coletivo é uma questão de direitos humanos e algo que a lei exige. Além de qualquer outra consideração, desejamos que as pessoas se sintam bem e que seus direitos sejam reconhecidos. Mas, além disso, o assunto tem a ver com a gestão do talento. Uma empresa não pode dar-se ao luxo de perder sua melhor trabalhadora ou seu melhor trabalhador por questões de discriminação. E há mais uma questão muito importante: quanto mais diversa uma empresa for, mais rica será em questão de insights ou cosmovisões. É preciso considerar a diversidade como um valor em si mesmo. Contar com visões diferentes dentro de uma equipe ajuda a conhecer melhor os clientes e usuários com os quais trabalha.

O programa recomenda diversas linhas de ação para instituições:

  • Falar da diversidade sexual e da identidade de gênero com liberdade e respeito.
  • Garantir o anonimato daqueles que denunciam situações de assédio e discriminação, bem como uma resposta adequada.
  • Formar e sensibilizar todos os funcionários.
  • Reconhecer e celebrar a diversidade.
  • Criar redes internas de funcionários e funcionárias, bem como trabalhar com outras instituições que são aliadas nesse sentido e na gestão positiva da diversidade.

Antes da conclusão do programa, o ADIM lançou uma capacitação em espanhol, intitulada “Gestão da diversidade LGBT+ no âmbito de trabalho”. Trata-se de um curso online aberto e massivo (MOOC, por sua sigla em inglês), no qual, como seu nome indica, qualquer pessoa pode se inscrever e participar.Para obter mais informações para inscrever-se, podem visitar o site: adim.lgbt.eu.

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