Uma chamada de atenção sobre a saúde mental dos jovens LGBTQ+

Sete em cada dez jovens LGBTQ+ manifestam sintomas de ansiedade; seis, de depressão, e cinco, pensamentos suicidas. Eis o resultado de uma enquete realizada entre jovens LGBTQ+ pela organização The Trevor Project. Apesar dos avanços em questão de direitos, o ambiente continua sendo hostil e ações de acompanhamento são requeridas.

52% dos jovens transgênero e não binários dos Estados Unidos contemplaram seriamente a possibilidade de cometer suicídio, em 2020, durante a pandemia. Mais da metade pensou que seria melhor morrer do que viver isolados, em solidão, sendo intimidados e alvo dos políticos e ativistas que impulsionam a legislação antitrans. Assim foi registrado por uma enquete feita a jovens LGBTQ+, no passado mês de maio, pela organização global The Trevor Project, que trabalha na intervenção em crise e prevenção de suicídios entre jovens LGBTQ+, a maior do mundo em seu tipo. No mesmo estudo, 72% disseram que sofreram os sintomas de ansiedade generalizada e 62%, os de um transtorno depressivo mais grave.

A pesquisa mostra que as juventudes que integram o coletivo LGBTQ+ têm uma maior tendência a sofrer de ansiedade, depressão e, inclusive, a ter pensamentos suicidas. E isso, conforme é mostrado pelos resultados, se relaciona com a existência ― ou não ― em suas comunidades, de legislações que os privam de seus direitos e da possibilidade de ter acesso a uma mudança de nome, de acordo com a identidade assumida. A rejeição, a discriminação social ou o dano físico por parte de amigos ou familiares constituem os disparadores mais comuns que põem em risco a saúde mental dos jovens LGBTQ+. Aqueles que experimentaram a terapia de conversão ou tentativas de outros por forçar uma mudança na orientação sexual ou identidade de gênero são os mais vulneráveis.

Diante dessa realidade, sem receber ajuda no curto prazo, os sintomas como a depressão e a ansiedade podem aumentar e deles podem decorrer pensamentos suicidas ao longo do tempo. Portanto, hoje mais do que nunca, é fundamental falar de saúde mental dentro do coletivo― sobretudo considerando que, conforme a própria pesquisa revela, 70% dos jovens LGBTQ+ declararam que sua saúde mental foi “ruim”, na maior parte do tempo ou permanentemente, durante a pandemia da COVID 19.

Amy Green, diretora de pesquisa da organização The Trevor Project, amplia: “Vemos isso, particularmente, com aqueles que são trans, não binários e jovens afrodescendentes LGBTQ+”. A construção da identidade sexual está intrinsecamente relacionada com fatores intersecionais ― biológicos, sociais, culturais, psicológicos ― que confluem na autopercepção de uma pessoa e influenciam o desempenho de seu papel social. A respeito disso, Francis Kuehnle, enfermeira e especialista em gênero, assegura que a construção da identidade sexual dos e das jovens LGBTQ+ pode ser difícil de manejar, já que se trata de experiências de atingimento da maioridade (coming of age) não tão típicas que se acrescentam aos dilemas psicossociais tradicionais. 

Crescer não é fácil, e menos para alguém que está tentando afirmar e conhecer sua orientação sexual, identidade ou expressão de gênero em ambientes hostis. It Gets Better Argentina, uma organização sem fins lucrativos, cujo propósito é “elevar, empoderar e conectar jovens LGBTQ+ ao redor do mundo”, difunde vídeos feitos por adolescentes nos quais falam sobre questões como isolamento e integração, compartilham experiências de discriminação e de fustigação e contam como conseguiram lidar com elas. Trata-se de uma iniciativa que foi projetada nos Estados Unidos e também é levada à prática no Chile, e que não visa especificamente a prevenção do suicídio, como The Trevor Project, porém a inclui implicitamente ao trabalhar com a saúde mental.

Precisamente, um estudo da Unicef sobre suicídios em adolescentes destaca “a comunicação virtual e a participação das e dos adolescentes na produção das mensagens dirigidas a seus pares nas iniciativas de prevenção da conduta suicida”. Para agir sobre uma realidade como a mostrada na enquete da organização The Trevor Project, é preciso abordar a saúde mental dos e das jovens do coletivo e facilitar-lhes contextos nos quais possam ter acesso às experiências positivas de que precisam.

Oferecem ajuda:

The Trevor Project oferece programas gratuitos de prevenção do suicídio e intervenção em crise nas plataformas mais usadas pelos e pelas jovens. Conta com uma linha telefônica durante as 24 horas dos 7 dias da semana, chat, mensagens de texto e plataformas de redes sociais. Também administra o TrevorSpace ― o maior site de redes sociais de espaço seguro do mundo para jovens LGBTQ+ ― e opera programas de educação, pesquisa e defesa dos direitos do coletivo.
Redes:
IG e Twitter: @TrevorProyect
FB: TheTrevorProject

It Gets Better Argentina é uma organização global sem fins lucrativos. Entre suas iniciativas participativas, divulga vídeos feitos por adolescentes nos quais falam sobre assuntos como o isolamento e a integração, compartilham experiências de discriminação e de fustigação e contam como conseguiram lidar com elas.
Redes:
IG:@ItGetsBetter/ ItGetsBetterArg. Tem contas por país. 
Twitter: @ItGetsBetter/ ItGetsBetterArg. Tem contas por país.
FB: ItgetsBetterArgentina

American Foundation for Suicide Prevention (AFSP) é uma organização estadunidense que trabalha para prevenir o suicídio e acompanha aqueles que perderam um ser querido nessas circunstâncias. Propõe programas comunitários para compartilhar experiências, promove o intercâmbio em linha e oferece recursos práticos para falar com pessoas em risco e conter aquelas que tenham enfrentado uma perda.
Contato: https://afsp.org/about-afsp

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