Um guia para implementar a linguagem da diversidade

Organizações dos setores público e privado e da sociedade civil estão encarando processos para comunicar de uma forma inclusiva que mencione a diversidade. Ampliar a linguagem — embora essa não seja a única prática — já constitui um grande passo. Eis um guia de recomendações extraídas de diversos autores.

Com “e”? Com “x”? Não, melhor com @. Inclusão resolvida. Inclusão resolvida? Em tempos em que a noção de diversidade foi introduzida na agenda, o uso da linguagem inclusiva se torna, às vezes, desafiador. Porque não se trata simplesmente de usar o “e”, o “x” ou o “@”, mas de uma tomada de consciência. Seu uso faz parte do processo que visa atingir a mudança pretendida: a inclusão.

Iniciar esse processo em organizações —públicas e privadas— implica pôr em tensão padrões que estiveram enraizados em sua cultura durante muitos anos. Avançar nessa transformação importa uma tomada de consciência por parte das pessoas, das instituições, das empresas e das marcas.

Na Argentina, a publicação (Re)nombrar: Guía para una comunicación con perspectiva de género ([Re])nomear: Guia para uma comunicação com perspectiva de gênero) é uma das referências que os organismos oficiais tomam para ir nessa direção. No México, existe o manual de comunicação não sexista: Hacia un lenguaje incluyente (Rumo a uma linguagem inclusiva) e o texto Guía de lenguaje inclusivo de género (Guia de linguagem inclusiva de gênero) é a versão desenvolvida no Chile, com o mesmo objetivo. Existem guias em toda parte. Todos eles apresentam fundamentos profundos e valiosos sobre as razões para utilizar a linguagem inclusiva, vinculados com a criação de sentido.

No idioma espanhol, o uso do masculino genérico que abrange todas as pessoas é adotado como um sentido válido. Porém, isso não acontece com todas as línguas. Por exemplo, no inglês ― uma língua para a qual também existem recomendações de uso inclusivo ― os adjetivos não têm gênero, mas no espanhol, sim. Portanto, aqueles que fomentam a linguagem inclusiva lutam para que o uso do masculino genérico não seja a norma.

Conforme Cintia González Oviedo, fundadora e diretora da Bridge The Gap, “a comunicação inclusiva ou responsável não é algo a ser escolhido, mas uma tomada de consciência de que a forma de comunicar influi na criação de cultura. É uma parte importante da reprodução da cultura, na qual são normalizadas ou naturalizadas coisas que, por diversos motivos ― sejam sociais ou pelo advento de novos paradigmas de ativismo ― hoje geram uma nova tensão, que é uma tensão política pela criação do sentido que é tomado como válido”.

A construção de uma comunicação que crie um novo sentido é um processo que requer tempo e paciência. Hoje, é fácil encontrar um guia de linguagem inclusiva em uma organização, porém, se esse manual não for acompanhado de ações concretas, de avaliações e revisões, não servirá para nada.

Levando tudo isso em consideração, expomos, a seguir, algumas das recomendações que se encontram em diversos guias. Algumas delas manifestam enfaticamente que o patriarcado é o contexto cultural que deixa sua marca na linguagem, outras advertem que aquilo que não é mencionado, não existe… e esse é um motivo para mudar a forma de comunicar e começar a dar visibilidade às pessoas que se percebem de um modo diferente ao estabelecido como único pela norma social até hoje. Também há manuais que lembram que a linguagem não é sexista por si própria, mas pela maneira em que é usada. Todos os conselhos visam justamente a naturalizar a inclusão para que a diversidade se torne uma realidade.

+ Ao entrar em contato com uma pessoa pela primeira vez, é recomendável perguntar-lhe qual é a sua identidade de gênero autopercebida, seu nome ou os apelidos pelos quais deseja ser chamada. Em resumo, perguntar para não supor que a identidade dela é uma com a qual, talvez, na verdade não se sinta à vontade.

+ É claro que não existem apenas homens e mulheres, mas uma diversidade de identidades não binárias. É necessário respeitar essa identidade autodefinida, bem como evitar mencionar se uma pessoa tinha uma identidade antes e agora tem outra. Trata-se de um mau comportamento que costuma aparecer na mídia e que, infelizmente, as pessoas repetem.

+ Na comunicação oral ou escrita, é conveniente usar aqueles recursos linguísticos que não requeiram de um desdobramento contínuo, como se fosse o único caminho para resolver o sexismo na linguagem. É possível utilizar palavras e expressões neutras, que vão além do masculino ou do feminimo, até porque, em definitiva, sempre se trata de pessoas.

+ Se for preciso referir-se a uma mulher que ocupa um cargo em um espaço definido ― como uma executiva em uma empresa ― é aconselhável usar o gênero feminino na hora de mencionar seus cargos, como presidenta, gerenta, vice-ministra.

+ A situação é outra quando se utilizam expressões que definem uma atividade como exclusiva, ou predominantemente, dos homens ou das mulheres, porque perpetuam estereótipos de gênero. Há exemplos cotidianos que nos fazem perceber que é necessário encontrar outras formas de expressão. No contexto da pandemia, por exemplo, é habitual escutar falar dos “médicos” e das “enfermeiras”, como se não houvesse médicas nem enfermeiros, ou dos “alunos” e das “professoras”, como se não houvesse meninas na escola nem homens dando aula.

+ Se se resolvesse usar o “e” para nomear sem recorrer ao modo plural masculino (“os trabalhadores”, “os estudantes”), é recomendável reservar este uso para a menção de coletivos: não aplicar o “x” ou o “e” para todos os plurais, por exemplo, ao mencionar objetos, porque ao levar esse uso além das pessoas se banaliza um tema que exige tomada de consciência. Empregar o “e” permite evitar o binarismo da linguagem (feminino/masculino) que invisibiliza as diversidades. É recomendável usar o “e” para o plural de um grupo diverso de pessoas sobre o qual se ignoram as identidades de gênero autopercebidas.

+ Também é recomendável evitar a redundância, ou seja, destacar a condição de mulher por cima de outros traços vinculados com o assunto que está sendo tratado.

+ Quando se trata da comunicação de campanhas públicas ou de marcas, insiste-se no uso de genéricos, abstratos e coletivos: pessoas, cidadania, infância, entre outros.

Estas recomendações constituem, como já foi dito, apenas uma parte de um conjunto integral de ações que uma organização deve fomentar, se quiser mesmo ser inclusiva, diversa e rica.

Então? Com “e”, com “x” ou com @? Uma primeira resposta é tomar consciência e usar uma linguagem mais diversa. Isso não quer dizer que a única opção sejam esses caracteres. Há empresas e instituições que adotam formas não sexistas (“os e as”), procuram usar um vocabulário em que aparecem plurais femininos e de gênero neutro e formas de nomear que não usem sempre o masculino plural. Por mencionar apenas um exemplo: “a cidadania”, em lugar do plural “os cidadãos”. Em definitiva, não se trata tanto de replicar automaticamente uma fórmula mas de interiorizar uma visão mais diversa e inclusiva do mundo. E então, com certeza, esse olhar estará presente em nossa forma de mencionar as pessoas e de nos comunicarmos com elas.

Guias consultados

Nações Unidas: https://www.un.org/es/gender-inclusive-language/guidelines.shtml

(Re)Nombrar [(Re)Nomear]: https://www.argentina.gob.ar/sites/default/files/guia_para_una_comunicacion_con_perspectiva_de_genero_-_mmgyd_y_presidencia_de_la_nacion.pdf

Guia de linguagem inclusiva: https://www.cultura.gob.cl/wp-content/uploads/2017/01/guia-lenguaje-inclusivo-genero.pdf

Manual de comunicação não sexista: http://cedoc.inmujeres.gob.mx/documentos_download/101265.pdf

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